Esta crônica foi finalista no I Concurso Editora Guemanisse de crônicas, em 2009. O Sebastian não precisa de apresentação. Ilustração: BrunoW. Vai virar eBook, em breve, ...
Atenção: abro uma exceção no tamanho do texto abaixo por motivos óbvios, mas continuo fã de textos curtos. Menos é sempre mais. Na Internet, então nem se fala...
Meu nome é Sebastian. Também sou conhecido como Tião, Peludinho, Gato “Safado” e outros nomes carinhosos, mas pode me chamar de “Sebastião dos Bigodes”. Sim, sou um gato. Da raça persa, aquela muito peluda. Tenho pêlos pretos nas costas e brancos na barriga: todos dizem que sou realmente lindo! Tenho quase sete anos, peso seis quilos e estou em plena forma. Claro que tenho “pedigree”, mas não ligo para essas coisas. Na vida, o que eu gosto mesmo é de ficar sossegado, observando tudo, em silêncio... sou um “gato-zen”...
A minha dona se chama Penélope. Nós vivemos em um lindo apartamento no sexto andar de um prédio, na Asa Sul de Brasília, a capital do Brasil. Há alguns meses, Penélope começou a dizer que íamos nos mudar. Eu sabia que algo estava para acontecer porque vi o movimento das malas, a dança dos móveis, o entra-e-sai. Mas nunca imaginei que tudo aquilo fosse acontecer seriamente. Sempre tive a esperança de que Penélope mudasse de idéia. Sou um “gato-cético”.
Aqui de dentro do carro, indo para o aeroporto e vendo Brasília passar na janela do automóvel a oitenta quilômetros por hora, vou dando adeus à cidade onde nasci, apesar das minhas origens árabes. Penélope, sentada ao meu lado, parece feliz. Depois de tanto tampo vivendo juntos, conheço bem aquele sorriso: então fico feliz também. Mas também fico pensando como é que eu vim parar nessa. Eu sabia que poderia acontecer, porque, afinal de contas, ela e o Príncipe-Encantado estavam planejando viver juntos, desde o ano passado. Então, na verdade, acho que tive preguiça de acreditar. Nem a instalação do “microchip” no meu pescoço me convenceu. Enfim, não acreditei antes, mas aqui vamos nós rumo ao Príncipe-Encantado. Vou virar o “gato-do-Príncipe-Encantado”.
O Príncipe-Encantado é um cara bacana: eu gosto do cheiro dele. Mas é outro macho tentando dominar, então nós temos uma eterna luta de caráter territorial. Cada um marca seu território como pode. Ele deixa meias usadas pela casa e eu faço pipi no tapete do banheiro. Eu finjo que ele manda, mas faço tudo o que eu quero, no final das contas. Assim fica todo mundo feliz! Apesar disso, nossa convivência é pacífica e nós três nos divertimos muito, sempre. Bem, se iríamos viver definitivamente a três, é fundamental alcançar uma certa harmonia. Afinal, sou um “gato-compreensivo”.
Tudo pronto. Cintos afivelados. Poltronas nas posições verticais. Aqui vamos nós! Um pouco de pressão nos ouvidos, mas daqui a pouco fica tudo bem e começa o festival de comidas. Nada mal essa poltrona perto da janela, dentro do avião, mas acho melhor não ficar com os bigodes colados no vidro. Claro que eu gosto de alturas, mas isso aqui é muito mais alto do que um gato pode imaginar. Pena que o avião vai tão alto que não dá para ver nada lá embaixo. Pena também que um avião tão grande assim tenha janelas tão pequeninas. Imagine só: estou voando! Sou um “gato-alado”!
Opa, turbulência! Nada de pânico! Eu já tinha voado antes para o Rio de Janeiro, mas é o meu primeiro vôo internacional. Estou meio emocionado. Não gosto de viajar, mas sei que não tinha outro jeito, porque Penélope nunca me deixaria para trás. Então, não há nada a fazer, além de dormir e esperar o tempo passar. Enquanto isso, fico aqui pensando em como será a casa nova. Será que vai ter espaço para mim? Será que vai ter pastinha da que eu gosto? Será que lá faz frio ou faz calor? Onde eu vou dormir? Acho que sou um “gato-ansioso”!
Cá entre nós, viajar de avião não me incomoda. O que me incomoda realmente é ficar tanto tempo sem ir ao banheiro. Eu sou um “gato-educado” e só faço minhas necessidades na minha querida caixinha de areia. Sei que, em caso de emergência posso fazer aqui onde estou, porque Penélope está preparada para limpar. Mas um “gato-lorde” não faz porcaria em público. Prefiro esperar para ir ao banheiro com toda classe e privacidade, quando chegarmos na casa nova. E, por falar em casa nova, vida nova... quem sabe se a mudança abre os olhos de Penélope. Já é hora de enxergar que eu não sou mais uma criança. Sou um “gato-adulto” e não quero mais saber de ser chamado com nomes no diminutivo. Chega de Tiãozinho, fofinho, peludinho... eu sou é Tiãozão, peludão, machão!
Uma coisa que gosto nos aviões são as aeromoças. São lindas, sorridentes e perfumadas. Parecem modelos russas desfilando em um castelo com asas. E o melhor de tudo é que estão sempre oferecendo alguma coisa quentinha ou fofinha, com um belo “sorriso colgate”. Em Brasília, Penélope tinha várias amigas que pareciam aeromoças. Eventualmente, me apaixonei por algumas delas, a ponto de me jogar, literalmente, aos seus pés. Era uma tática infalível! Todas se derretiam como sorvete diante da cena e eu sempre ganhava um cafuné na barriga. Sou um “gato-galã”, o que posso fazer?
O sol está se pondo na minha janelinha. Quem sabe que tipo de pôr-do-sol vou encontrar daqui para frente? Acho que vamos passar a noite acordados dentro do avião. Quer dizer, as pessoas estão se preparando para dormir, mas eu não pretendo pregar os olhos. Sei que não posso explorar o avião como gostaria e acho que Penélope não permitiria que eu andasse por aí, mas seria ótimo. Afinal, daqui a pouco estarão todos dormindo e ninguém saberia de nada. Sou um “gato-ninja”!
Estou cansado de ficar sempre sentado, esperando, sem poder fazer nada. Eu sei que falta pouco para a viagem terminar, mas não vejo a hora de relaxar em um belo pavimento de cerâmica, bem geladinho. Pensa que é fácil, ficar vinte e quatro horas vestido com uma pelúcia como a minha? Estou todo suado, mas nada que um belo banho de gato não resolva. Só espero que Penélope não invente de me mandar ao "pet shop" para tomar banho. Não tenho nada contra tomar banho. Até gosto, se estiver calor. Mas não gosto de tomar banho com homens. Com mulher, tomo banho sem reclamar. Sou um “gato-manhoso”.
Já são quase dez horas de viagem. Estamos na metade do caminho. Quando viajo, não como, nem bebo nada. Prefiro assim. Daqui a pouco vai amanhecer e vamos passar na alfândega portuguesa. O pessoal da fronteira vai querer conferir todos os nossos documentos e o meu "microchip". Penélope me disse que, no futuro, os humanos, assim como os gatos e os cachorros, vão ter "microchips" de identificação, também. Eu não acredito, mas ela me explicou que as pessoas vão colocar o "microchip" por vários motivos, inclusive por dinheiro. Que loucura! Ninguém me pagou para colocar o "microchip". Muito pelo contrário: custou uma nota preta, mas era obrigatório para viajar de avião. Então não teve jeito e tive que colocar. Mesmo pagando eu não colocaria nenhum "microchip" em mim. Não sou um “gato-zumbi”! Sou apenas um “gato-chipado”!
E já que estamos entrando em assuntos privados, devo confessar que mantenho um relacionamento com as pantufas de Penélope. Um relacionamento aberto, sem preconceitos, que vem durando muitos anos. Na vida real, porém, nunca tive uma namorada séria. Só flertes (que não deram em nada). Além de ser tímido, também sou meio desconfiado, então não sou muito social. Tenho poucos e bons amigos. Tenho vergonha de falar de intimidades, mas há sempre aquela pergunta recorrente. Prefiro responder diretamente para poder mudar de assunto. Sim! Eu sou um “gato-castrado”! Hunf...
Parece que chegamos. O pessoal ficou meio agitado. Acho que está todo mundo cansado como eu. Cinto de segurança, voltar aos seus lugares, o mesmo procedimento. Olha a cidade lá embaixo. Tudo conferido, tudo certo, vamos pousar. Avião na terra, começa uma correria. Acontece tudo muito rápido. A minha única visão durante alguns minutos se resume a malas e sapatos. Fico quieto para não ser notado, mas de vez em quando alguém me descobre e começa aquele festival de elogios e autógrafos. Não gosto muito desse chamego, porque sou um “gato-tímido”.
Olha as nossas malas ali! Segundo Penélope, encontrar as malas no final é tão bom quanto cafuné na barriga. Deve ser pelo sorriso dela! Epa! eu conheço aquele sujeito! Eis o Príncipe-Encantado! Agora ele vai me pegar no colo e vai me levar para dar uma voltinha. Eu gosto porque ele é alto e daqui de cima tenho uma visão geral da situação. Então, vamos para a casa nova? Trouxe o cavalo branco? Melhor que cavala branco: o primo do Príncipe-Encantado veio de carro esportivo buscar a gente. Perfeito! Serviço de luxo! Enfim, sou um “gato-sortudo”.
Depois de uma viagem assim, nada melhor que chegar em casa. Finalmente a tal casa nova! Que casa bonitinha! Eis a minha adorada caixinha de areia! Ufa! E tem até água fresca e meu cardápio favorito. Agora sim, estou gostando. Vamos investigar a casa nova, descobrir todas as novidades e achar todos os esconderijos disponíveis. Dos tapetes eu gostei e aquela poltrona ali vai ser meu cantinho de tirar uma soneca vespertina. Debaixo da cama eu tenho muito espaço. Adorei a varanda. Da banheira nem se fala! Como se vê, sou um “gato-curioso”.
“Blim, blom”! Tem alguém tocando a campainha. Quanta gente nova! Um, dois, três, quatro, cinco amigos. E aquela peludinha quem é? Que surpresa! É uma gatinha. Uma gata no meu território! Nada disso! Hum, mas, olhando de perto, a gata é gata mesmo. E tem até cheiro de aeromoça. Que delícia! Vamos brincar? Posso mostrar a minha coleção de ratinhos? É, parece que também encontrei o amor. Sou um “gato-encantado”.